No dia 24 de agosto de 2009, Maicon Rogério Pereira colaborador do Projeto Pérola nos concedeu entrevista contando de sua aventura no Projeto OASIS SC.
Confira abaixo seu depoimento.
Maicon começou seu envolvimento com o Pérola há mais ou menos 2
anos pela escola de Talentos, passando pela Escola de Líderes e projeto GMM,
precisou se afastar do GMM por trabalhar e estudar, mas não abandonou por
completo a escola de Talentos. Quando se viu disponível novamente, voltou com
tudo para o projeto.
Com o GMM desenvolveu
um projeto de uma Agência de Empregos, ao término da execução do Projeto o foco
era “empregar” ao menos 20 pessoas. O Projeto foi aprovado pela bancada do GMM,
mas com algumas ressalvas, uma delas era que se mudasse o foco da execução, não
empregar pessoas, e sim capacitá-las.
Foi um projeto bem aceito, que teve momentos de parada
durante seu desenvolvimento, perdeu-se a segunda chamada do painel, e na
terceira arrasou na apresentação. O Maicon até apresentou um poema que fez
sobre o bairro. Foi difícil e trabalhoso, mas valeu à pena.
Dos 30 projetos que iniciaram no Novo Mundo, este foi o
único que se apresentou no painel.
O Maicon começou a trabalhar no Pérola em Abril de 2009,
nesse mesmo período recebeu o convite para então finalizar o projeto do GMM.
Desde então o Maicon vem tendo destaque dentro do GMM-Ashoka
e do Pérola.
OASIS
Em Julho recebeu uma proposta do grupo do GMM para integrar
uma “força-tarefa” em auxílio de comunidades que sofreram com as enchentes em
Santa Catarina.
Foi uma viagem de 10 dias custeada pelo GMM-Ashoka, que
começou em 21 de julho e acabou em 1º de agosto, que o Maicon agarrou sem
pensar duas vezes.
Foram muitas cidades atendidas, Blumenau, Ilhota, Itapema,
Brusque, Gaspar, Itajaí e Navegantes; onde o Maicon atuou na comunidade de
Volta Grande.
A transformação que ocorreu não foi meramente visual nas
cidades e comunidades atendidas, mas sim pessoal, tanto para os moradores,
quanto para os participantes. Nesse processo participaram moradores,
empresários, crianças, GMM, todos se envolveram para que a programação e a
realização dos trabalhos fosse cumprida.
A Equipe verde que o Maicon participava, era encarregada
pela parte esportiva, responsáveis pela reconstrução do campo de futebol. Em 5
dias na comunidade de Volta Grande eles conseguiram reconstruir o Campo de
Futebol, criar uma pista de saltos em distância e uma quadra de vôlei, muito
além do previsto.
“Oasis, nossa, mudou minha vida”, declaração do Maicon, “foi
a primeira vez que andei de metrô, e viajei de avião. Tremendo no avião assim,
pegamos um pouco de turbulência, mas tudo bem” Comenta.
Tinha bastante gente de outros estados, Rio de Janeiro, Ceará,
Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina...
“Quando nós chegamos o pessoal nos recebeu como
celebridades, fizeram um corredor e fomos passando com as malas, foi muito
emocionante”.
“Tocaram fanfarra em ritmo brasileiro, teve uma roda de
capoeira com o pessoal da comunidade, um sopão pra nós comermos, nos chamavam
de anjos.”
“O pessoal não estava mais em união, tentamos levar alegria
e união pra eles, a defesa civil avisando de novas chuvas, o medo tomava
conta.”
Nossa meta em Navegantes era a reconstrução da praça, que
era a necessidade deles.
Um grupo de pescadores doou uma rede com mais de 30 metros e
uma indústria nos ajudou a levá-la, no fim eles fizeram mais viagens para nós.
A união de todos gerou resultado.
Saímos com a assistente social da prefeitura para arrecadar
materiais enquanto o pessoal fazia a maquete e outros passos do projeto. Nesse
dia os estaleiros doaram um caminhão de areia, um caminhão de pedra,
comunidades vizinhas doaram cimento, um material de construção doou tinta, para
a pintura dos brinquedos.
Todo o dia tinha reunião que começavam às 22h e acabava por
volta das 02h da manhã, éramos divididos em grupos e cada um era responsável
por uma tarefa, tinha os responsáveis por nos acordar às 06h, foi muito
cansativo.
O pessoal da comunidade começou a nos acolher porque só
tinha 2 banheiros, não podia ligar os dois ao mesmo tempo, nesse momento o
pessoal começou a nos oferecer a casa pra tomar banho, comer...
No meu grupo que era de esporte, só vieram crianças, o
pessoal era livre pra escolher o grupo que queria ajudar, nossa meta era
reconstruir o campo de futebol. Sempre que precisávamos de alguma coisa as
crianças iam buscar rapidinho, nós os chamávamos de ”ventinho verde”.
Passamos o dia inteiro carpindo o campo, no final um morador
apareceu com um trator, acertou todo o campo, foi muito rápido.
As crianças estavam com as enxadas espalhando a areia, todo
mundo ajudou, a gente descendo carrinho de areia e elas espalhando, não tinha
mais dedo nosso só delas.
Os outros grupos estavam fazendo, parquinho, churrasqueira,
espaço de cultura.
Era uma corrida contra o tempo.
No fim fizemos o campo de futebol, a caixa de areia (para
saltos) e a quadra de vôlei.
Como choveu bastante o pessoal se lambuzou com o barro que
formava.
No terceiro dia apareceu um grupo meio barra pesada e
ficamos com medo, pois eles têm histórico de destruir as coisas, aí um carinha
do ITA que é de Votorantim foi conversar com eles, se eles participassem, não
teriam porque destruir. Quando vimos tinha um com uma enxada, outro e depois
todos estavam ajudando, eles só não sabiam por onde começar.
No último dia o pessoal de outra comunidade que já tinha
acabado os trabalhos veio nos ajudar.
Nesse dia o grupo da lareira foi colocar a lareira e ela
quebrou, os caras ficaram muito tristes, três dias trabalhando nisso. Nós
tínhamos tijolo, cimento, falei vamos construir outra. O pessoal dizendo que
não ia dar certo, eu comecei a fazer em volta do tubo mesmo, tentei aprumar e
foi, terminei, colocamos a lajota e acabamos nosso trabalho.
Começamos a perceber nas crianças aquele semblante triste,
aquele gás que a gente tinha levado estava acabando. Uma menina de uns 10 anos
me pediu uma camiseta, peguei uma do OASIS e escrevi uma mensagem pra ela.
Já tinham ocorrido enchentes, essa foi uma das mais ferozes,
mas eles falaram que não vão mais sair, porque o pessoal aproveita a situação
para roubar, mesmo nessa situação.
As montanhas pareciam chocolate, derreteram sobre as casas.
O cheiro é muito forte, ainda tem corpos debaixo da terra. Um menino bebeu dois
goles de água durante a enchente, depois de alguns dias sua boca começou a
apodrecer e querer cair, ele ficou internado, muito mal, mas depois melhorou.
Várias pessoas perderam a família inteira.
Muito das coisas novas que o Brasil inteiro doou, só chegou
coisas ruins, os governantes pegaram as coisas boas pra eles. Jogaram as coisas
na escola e pronto.
Não tivemos ajuda da prefeitura, sempre tinha um cara da
prefeitura que queria colocar o nome da prefeitura em tudo. Quando se fala em
política lá, o pessoal quer bater no prefeito, ele não ajudou em nada lá depois
das enchentes.
Os moradores foram conosco para Blumenau com a certeza que a
prefeitura de Navegantes iria mandar um ônibus no dia seguinte para buscá-los,
o pessoal curtiu a festa, foi uma festa muito grande, muito boa. No dia
seguinte o ônibus não foi, ligaram para a diretora da escola que ficou de
ajudar a conseguir o ônibus. No sábado eles foram embora, cada um pagando a sua
passagem, nem nisso a prefeitura ajudou.
Quando chegamos a Navegantes nem a imprensa sabia da nossa
presença.
O meu lado social só cresceu.
Cida: Qual o sonho seu agora?
Maicon: O meu sonho é, o que me deixa feliz é ajudar as
pessoas. O que eu quero hoje é fazer uma faculdade de assistência social e
passar o que aprendi. Viver mais experiências, viver mais OASIS.
OASIS EM SOROCABA: Nova Esperança, Vila Baronesa e Novo
Mundo. 16/17/18 de Outubro, mais GMM’s participarão Ester e Isaias (de
Votorantim)
OASIS foi uma escola, é um jogo que aprendemos para jogar na
cidade da gente, irá acontecer também no Ceará, Porto Alegre, Paraná, São
Paulo.
Intercâmbio de cultura.
Tiago: Pra você hoje em nível de Pérola, GMM, OASIS como é
fazer parte dessa equipe?
Maicon: Eu me sinto realizado, se for buscar na linha do
tempo, Pérola, GMM, Pérola de novo, Ashoka aprovando nosso projeto, OASIS. É
uma linha do tempo que eu engrenei e quero continuar cada vez mais.
Tiago: Quando você voltou para o projeto do GMM você já
havia sido contratado pelo Pérola?
Maicon: Já estava dando aula, o pessoal me ajudou quando vim
pra sede, retomar o projeto, acabei deixando o trabalho um pouco de lado. É um
orgulho estar no Pérola e ser um jovem GMM. No último dia a gente ouvia assim
os GMM são demais, o grupo do OASIS nos elogiou demais. O Edgar que é um dos
organizadores nos elogiou muito, gostou do nosso trabalho.
Ele nos disse que sempre teria um momento que iria melhorar,
iria piorar, mas iria melhorar. Ora fazia chuva, aí melhorava e fazia sol.
Éramos 12 GMM, mas fizemos a diferença.
Um jornalista da USP pegou o meu contato, ele queria fazer
um projeto de escola técnica em Navegantes, lá tem tudo pra crescer, mas não
tem o devido investimento. Ele gostou da idéia do SabeTudo, Pérola, e queria a
minha ajuda. Queria saber como funcionam os cursos.
Tiago: Como você definiria o papel do Pérola e o seu na
sociedade, até por ter passado por essa experiência?
Maicon: O Papel do Pérola seria aquele papel de guia,
levando pro lado certo e o meu papel é seguir. Se o Pérola disser que é bom, eu
vou atrás.
É uma família é uma motivação.
Recebi uma proposta de emprego recentemente, falei mãe, pra
sair do Pérola tem que ser uma oportunidade muito boa, aqui é uma família
mesmo.
Cida: Eu vi esse menino evoluindo no GMM, sempre acreditei
nele, sempre disse que ele ia longe.
Esse é só o começo de uma história que está dando e tem tudo
pra dar mais certo. Parabéns pela garra, esperança e luta! Continue essa pessoa
maravilhosa que é. Parabéns por essas e todas as suas conquistas.